quinta-feira, 12 de abril de 2012

Carta de amor à mim mesma






Manuella,

Escrevo enquanto te olho por dentro. O que vejo nem precisa ser bonito, nasci para amar tudo que vem de você. Escrevo pra te fazer um afago. Porque te conheço inteira, naquela hora em que tudo é silêncio e sombra, naquela hora em que sua gargalhada é um sol. Desse seu corpo que nasceu para abraçar, eu conheço cada poro. Conheço cada sopro, cada falha na tua voz. Toda a força do teu canto desafinado, eu conheço. Eu te conheço além da tua relação anti-convencional com teus homens. Com tuas mulheres. Com essas pessoas que você ama.Com essas que você (tenta) se recusa a odiar porque não quer despender energia pra isso.

Eu te conheço doendo. Eu te conheço em paz .E é por isso, Manuella, que eu sou a pessoa que mais poderia amar você. Porque não me interessa onde você erra, me interessa o que você aprende, apreende, absorve. Me interessa é como você se transforma. Interessa é o teu olhar de novidade derramado sobre as coisas simples e cotidianas como se descobrisse a essência do mundo diariamente. O que interessa é esse seu medo da morte, a sedução que ela exerce sobre você e o teu instinto de vida tão maior que tudo. Eu te conheço boêmia, anestesiada porque tua intensidade sufocando, apertando os dentes. Eu te conheço premonitória, dando consultas em mesas de bar, plantando esperanças porque a intuição disse que sim, vai dar certo, e, ás vezes, dá.

Eu te conheço arrasada, opaca, ferida, feroz. Rabugenta. Confusa. E não é menos Manu. É a outra ponta do extremo. A totalidade. Eu te conheço tendo recaídas, não sendo ingênua mas optando por acreditar no outro de novo, de novo, de novo. Mas só até a terceira vez. Eu te conheço com um mau-humor contagiante, com uma disposição esfuziante, com uma alegria solitária ou sozinha com os teus livros e uma canga à parte pra eles. Aquela que só entra no mar de mãos dadas com alguém porque tem medo de não sair. A que evita altura porque quando olha pra baixo só pensa na queda. A amiga popular e agregadora. A que morre de ciúmes e toma omeprazol efervescente pra acalmar a gastrite ciumenta.

Eu nasci pra amar você porque sei dos teus desesperos, tropeços, anseios. Sei da tua honestidade quando sente. E dessa intranqüilidade pela falta de ambição. Te conheço acordando de madrugada só pra anotar uma frase. E fazendo da prosa poética teu sossego. Da vontade que você tem de voltar logo pra casa só pra escrever aquele texto que nasceu durante a caminhada. Das tuas roupas com cores desconexas .Da tua irritação com pessoas desconectadas. Tua preocupação com o lixo. Teu preconceito com o luxo. Teu boteco copo sujo. E a solidão permanente e o teu namoro com a vida.

O que ainda posso dizer? Que você, Manu, vive para a palavra, mas anseia viver exatamente aquilo que ela não alcança.

E é por isso que eu te amo além do amor.

Eu te amo para sempre. Hoje.



* texto de Marla de Queiroz, adaptado.



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