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sexta-feira, 11 de maio de 2012

Há respostas nas palavras antigas.


I
Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.
Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.
Que este amor só me veja de partida.

II
E só me veja
No não merecimento das conquistas.
De pé. Nas plataformas, nas escadas
Ou através de umas janelas baças:
Uma mulher no trem: perfil desabitado de carícias.
E só me veja no não merecimento e interdita:
Papéis, valises, tomos, sobretudos
Eu-alguém travestida de luto. (E um olhar
de púrpura e desgosto, vendo através de mim
navios e dorsos).
Dorsos de luz de águas mais profundas. Peixes.
Mas sobre mim, intensas, ilhargas juvenis
Machucadas de gozo.
E que jamais perceba o rocio da chama:
Este molhado fulgor sobre o meu rosto.
III
Isso de mim que anseia despedida
Não tem nome de amor. Nem é celeste
Ou terreno. Isso de mim é marulhoso
E tenro. Dançarino também. Isso de mim
É novo: Como quem come o que nada contém.
A impossível oquidão de um ovo.
Como se um tigre
Reversivo,
Veemente de seu avesso
Cantasse mansamente.
Não tem nome de amor. Nem se parece a mim.
Como pode ser isto? Ser tenro, marulhoso
Dançarino e novo, ter nome de ninguém
E preferir ausência e desconforto
Para guardar no eterno o coração do outro. 
(Para perpetuar o que está sendo)

    VII

Rios de rumor: meu peito te dizendo adeus.
Aldeia é o que sou. Aldeã de conceitos
Porque me fiz tanto de ressentimentos
Que o melhor é partir. E te mandar escritos.
Rios de rumor no peito: que te viram subir
A colina de alfafas, sem éguas e sem cabras
Mas com a mulher, aquela,
Que sempre diante dela me soube tão pequena.
Sabenças? Esqueci-as. Livros? Perdi-os.
Perdi-me tanto em ti
Que quando estou contigo não sou vista
E quando estás comigo vêem aquela.

VIII
 Aquela que não te pertence por mais queira
(Porque ser pertencente
É entregar a alma a uma Cara, a de áspide
Escura e clara, negra e transparente), Ai!
Saber-se pertencente é ter mais nada.
É ter tudo também. 
É como ter o rio, aquele que deságua
Nas infinitas águas de um sem-fim de ninguéns.
Aquela que não te pertence não tem corpo.
Porque corpo é um conceito suposto de matéria
E finito. E aquela é luz. E etérea.
Pertencente é não ter rosto. É ser amante
De um Outro que nem nome tem. Não é Deus nem Satã.
Não tem ilharga ou osso. Fende sem ofender.
É vida e ferida ao mesmo tempo, “ESSE”
Que bem me sabe inteira pertencida.

IX
Ilharga, osso, algumas vezes é tudo o que se tem.Pensas de carne a ilha, e majestoso o osso.
E pensas maravilha quando pensas anca
Quando pensas virilha pensas gozo.
Mas tudo mais falece quando pensas tardança
E te despedes.
E quando pensas breve
Teu balbucio trêmulo, teu texto-desengano
Que te espia, e espia o pouco tempo te rondando a ilha.
E quando pensas VIDA QUE ESMORECE. E retomas
Luta, ascese, e as mós do tempo vão triturando
Tua esmaltada garganta... Mas assim mesmo
Canta! Ainda que se desfaçam ilhargas, trilhas...
Canta o começo e o fim. Como se fosse verdade
A esperança. 


Hilda Hilst




segunda-feira, 7 de maio de 2012

Aprendendo a Viver

Este é o título do meu primeiro livro da sempre minha (e só minha) Clarice Lispector. (Hoje) clichê e contraditória, também era minha imensurável adoração por suas palavras e pela decepção de ser uma fã sem um singelo exemplar de um pedacinho da sua imensidão, em casa. Dei-me de presente, mandando fazer um pacote bem bonito e colorido, na livraria mais linda da cidade. Mas como ele veio parar aqui, nas minhas mãos e dentro do meu coração, eu quase nem sei explicar.

Estava eu, perdida entre livros e cds e dvds e moleskines e obras de arte, quando me dou conta de que deveria  tentar encontrar algo com algum motivo maior. Tenho em mim um jeito estranho de despertar interesse por algum assunto muito específico. Ouço alguém falar e aquilo vibra. Imediatamente, como mágica, vejo, ouço, sinto por todos os lugares por onde vago, algo que me faça lembrar do que, agora, pulsa forte em mim, inquietando minha curiosidade. Assim foi com Frida Kahlo. Assim tem sido com Hilda Hilst. 

Procurei pelo atendente mais próximo e pedi para que me indicasse em qual prateleira encontravam-se suas obras. Imadiatamente, ele me deu 3 livros de poesia, correndo (mesmo!) até a outra ponta da livraria, empilhou mais cinco livros nas minhas mãos. "Divirta-se. Caso não queira algum, é só deixar em cima desse balcão. Boa leitura." Fiquei até ansiosa. De uma vez por todas, eu poderia descobrir quais os motivos que traçaram de forma tão forte meu caminho e o dessa velha desbocada senhora. Rápida, tentei ler na mais breve velocidade as orelhas dos livros, na busca por algo que me gritasse: "ESTE LIVRO É PARA VOCÊ." Caiu como uma sinaleira piscante em minhas mãos o "O caderno rosa de Lori Lamb" que logo na  primeira página, antes do prefácio, continha dizeres de algum filósofo famoso, algo do tipo "Apenas os apaixonados olham para as estrelas e realmente conseguem vê-las", com uma frase dela logo abaixo "E os que olham, se fodem." Genial. Era isso que eu queria. Era disso que eu precisava. Uma vida mais gelada, mais ácida, algo que me tornasse dura feito pedra. Foi uma pena que a (não sei bem dizer qual sentimento) de ler, logo nos primeiros parágrafos, a descrição perfeita do ato de abuso sexual à uma criança de oito anos, contada irônicamente pela mesma, me fez sentir tão mal, tão frágil que fechei o livro e decidi deixar Hilda para tempos mais fortes.

Olhei para a grande prateleira na minha frente, nominada de "Literatura Brasileira". Sabia que havia algo ali feito pra mim. Na mosca! Meus olhos foram caindo até sua penúltima linha cheia de livros cheirosos e ali, bem ali, encontravam-se todos os livros de Clarisse. Era chegada a hora. Leio muito Clarisse, mas já li mais.  E, ao mesmo tempo, tenho até vergonha de dizer isso, porque o que li mesmo foram apenas esses textos cortados e recortados que se espalham pela web. Decidi que era a hora da estrela entrar em mim vida, para ficar. E se enraizar. Vi, entre muitos, o livro "Aprendendo a Viver" e tive certeza absoluta de que este seria o primeiro livro da minha nova vida. Tudo o que eu preciso saber. Escrito pela mulher que me fez mulher, que descreve tudo que se passa em mim, com palavras próprias, que me encontra, me perdendo, que me faz sentir viva, mesmo pensando que vida é grande demais para se viver. Ditado por regras completamente desregradas.

Eis a melhor parte até agora:

"Muitas coisas que me aconteceram tão piores que esta, eu já perdoei. No entanto essa não posso sequer entender agora; o jogo de dados de um destino é irracional? É impiedoso."



domingo, 12 de fevereiro de 2012

Fora de mim - Parte (sem fim)



"Doeu perder você. Passados quatro anos, ainda lembro. é uma dor tão recorrente na vida de tantas mulheres e tantos homens, é assunto tão repreisado em revistas, é um sofrimento tão clássico e tão narrado em livros, filmes e canções, que mesmo que eu não lembrasse, lembrariam por mim. é uma dor que se externa. Uma dor que se chora, que se berra, que se reclama. Uma dor que tentamos compreender em voz alta, uma dor que levamos para os consultórios dos analistas, uma dor que carregamos para mesas de bar, e que vem junto também para a solidão da nossa cama, para o escuro do quarto, onde permitimos que ela transborde sem domínio e sem verbo. A dor massacrante do abandono, da falta de telefonemas, da falta de beijos, da falta de confidências. No entanto, perde-se o homem, perde-se a mulher, mas o amor ainda está ali, mesmo sendo o deflagrador do vazio. Por estranho que pareça, há uma sensação de pertencimento, algo aidna está conosco. A saudade é uma presença.
Então vem a etapa seguinte.
Essa não é tão divulgada, tem-se por ela mais respeito e menos informação, pois é vivida pelo silêncio. O que acontece é que tem uma hora que ninguém mais aguenta ouvir a gente entonar nossa sina, lamentar nossa má sorte, procurar explicações para o fim. É quando a gente se dá conta de que já abusou da paciência dos amigos, dos familiares, e cala. Sofrimento cansa. Não só cansa aquele que sofre, mas cansa aqueles que o assistem.
Foi assim que a segunda dor começou, enquanto a primeira ia diminuindo. Já que eu não queria mais amolar niguém, comecei a fingir que estava me recuperando, e aí começou a recuperação de fato, tirei o foco de cima da minha autocomiseração, já não me sentia abandonada por Deus, aceitava com resignação a ruptura definitiva do nosso relacionamento, e dei início a um novo processo de despedida. Não mais o adeus a você, que já havia partido, mas o adeus à pessoa sofrida que eu vinha sendo. Aquele eu amargurado é que estava saindo da minha vida."




terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

O maior adeus






No dia do maior adeus, o sol estava alto,
era início do verão que a brisa quente
abençoava. Eu era amada e ouvia o contínuo murmúreo das ondas.

No dia do maior adeus, pensei em mel, em pérolas,
em facas, em deuses, em Ícaro com suas asas,
em vertigem, em céu, em pássaros.

No dia da despedida, comi peixe com pirão.

No dia do maior adeus, continuei lembrando que
iria pela via afora, todos os dias, dias a dias, a adorar o Amor,
mesmo que sua passagem provoque alegrias
e descontentamentos.

No dia da distância aumentada.
Da estrada da incomunicabilidade.
Do descaso.
Do descontinuado.

As nuvens seguiram, condensando
lembranças pluviais.
Caminhei pela montanha, comprei jornal,
reguei as samambaias.
Como todos os dias: abri e fechei janelas.

No dia desse adeus, pensei em entender, em me calar,
em para sempre, pensei em não pensar.

Nesse dia vi estrelas radiantes e silenciosas.

No dia do maior adeus, permaneci com os olhos no cais,
o sangue escorrendo, coagulando,
e eu, até a medula,
fadada a ser eu.


Natália Barros



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Na terra do "se"







Se quem luta por um mundo melhor soubesse que toda revolução começa por revolucionar a si próprio. Se aqueles que vivem intoxicando sua família e seus amigos com reclamações fechassem um pouco a boca e abrissem suas cabeças, reconhecendo que são responsáveis por tudo que lhe acontece. Se as diferenças fossem aceitas naturalmente e só nos defendêssemos contra quem nos faz mal. Se todas as religiões fossem fiéis a seus preceitos, enatecendo apenas o amor e a paz, sem se envolver com as escolhas particulares de seus devotos. Se a gente percebesse que tudo o que é feito em nome do amor (e isso não inclui ciúme e posse) tem 100% de chance de gerar boas reações e resultados positivos. Se as pessoas fossem seguras o suficiente para tolerar opiniões contrárias às suas sem precisar agredir e despejar sua raiva. Se fôssemos mais divertidos para nos vestir e mobiliar nossa casa, e menos reféns de convencionalismos. Se não tivéssemos tanto medo da solidão e não fizéssemos tanta besteira para evitá-la. Se todos lessem bons livros. Se as pessoas soubessem que quase sempre vale mais a pena gastar dinheiro com coisas que não vão pra dentro de armários, como viagens, filmes e festas para celebrar a vida. Se valorizássemos o cachorro-quente tanto quanto o caviar. Se mudássemos o foco e concluíssemos qe infelicidade não existe, o que existe são apenas momentos infelizes. Se percebêssemos a diferença entre ter uma vida sensacional e uma vida sensacionalista. Se acreditássemos que uma pessoa é sempre mais valiosa do que uma instituição: é a instituição que deve servir a ela, e não o contrário. Se quem não tem bom humor reconhecesse sua falta e fizesse dessa busca a mais importante da sua vida. Se as pessoas não se manifestassem agressivamente contra tudo só para tentar provar que são inteligentes. Se em vez de lutar para não envelhecer, lutássemos para não emburrecer.

Se.


Martha Medeiros

sábado, 8 de outubro de 2011

Capítulo do Meio



É a pior morte, a do amor. Porque a morte de uma pessoa é o fim estabilizado, é o retonro para o nada, uma definição que ninguém questiona. A morte de um amor, ao contrário, é viva. O rompimento mantém todos respirando: eu, você, a dor, a saudade, a mágoa, o desprezo ― tudo segue.E ao mesmo tempo não existe mais o que existia antes. É uma morte experimentoas: um ensaio para você saber o que significa a morte ainda estando vivo, já que quando morrermos de fato, não saberemos.

Então é isso que começo agora, minha trajetória de morta-viva, com algumas horas morta, outras mais vivas, dependendo do que me chega, se um convite para sair ou uma lembrança corrosiva que abate e me destrói. A cada meia hora, um estado de espírito diferente. À noite, meu cansaço é igual ao de um maratonista, é como se eu tiovesse atravessado dezenas de quilômetros, entre subidas e descidas. Mas, ao contrário do que acontece nas ativbidades físicas, as descidas são as que mais consomem minha energia.


"Ele está morto. Ela aos ais
Mas neste lúgubre assunto
Quem fica viúvo é o defunto
Porque esse não casa mais."


Os versos de Mário Quintana tentavam me explicar que o amor termina apenas para aquele que morre: quem sobrevive dedica-se a um breve luto e depois volta pra casa ― e voltar pra vida quase sempre significa voltar a amar.



domingo, 18 de setembro de 2011



Depois chegara à conclusão de que ela não tinha um dia-a-dia mas sim uma vida-a-vida. E aquela vida que era sua nas madrugadas era sobrenatural com suas inúmeras luas banhando-a de um prateado líquido tão terrível.


- Clarisse L.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O Depois



Nunca sofri um acidente de avisão, mas já ouvi relatos de sobreviventes. Eles percebem a perda da altitude, a potência enfraquecida das turbinas, o desastre iminente, até que acontece a parada definitiva da aeronave e ouve-se um barulho fora do normal, algo verdadeiramente assustador. Então, após o estrondo, sobe do chão um silêncio absoluto. Por alguns segundos, ninguém fala, ninguém se move. Todos em choque. Não se sabe o que aconteceu, mas sabe-se que é grave. Alguma coisa que existia não existe mais. É a quietude amortizante de quem não respira, não pensa, não sente nada ainda.

Só então, depois desse vácuo de existência, desse breve período que niguém tem cereza se está vivo ou morto, começam a surgir os primeiros movimentos, os primeiros gemidos, uma sinfonia de lamentos que dará início ao que está por vir: o depois.