O que levam dois corações entregarem-se ao amor? A carência. Num mundo tão cheio de possibilidades, expressões, fontes, redes, pessoas, ideais, caminhos é fácil sentir-se insaciável - por mais que isso possa parecer contraditório. Por haver muitas formas de buscar a felicidade, acaba-se perdendo o valor das coisas que já possui, perdendo oportunidades tão únicas de fazer a diferença. Sendo assim, quando algo novo acontece, estremesse todo um ser. Quem tem gosto pela exclusividade (como eu), acaba sempre de cara com o mais difícil, o mais profundo, o mais diferente, o que a grande maioria não tem (e nem quer ter). Então, no meio da carência que se guarda no peito, procura-se, nas mais variadas formas, modos de preencher este espaço vazio. Você gostaria de ter um amor que fosse estável, divertido e fácil. Pois eis que a vida se encarrega de trazer uma nova oportunidade, um novo coração pulsante... e (de novo!) do outro lado da tela. A história se repete como no maior sitcom da vida real, usando o mesmo personagem, na mesma forma física (ok, nem tanto), nos mesmos gostos, através dos mesmos meios. Amigos em comum e muitos kms de distância, uma saudade que antes não existia, agora torna-se sufocante. Uma ligação que antes nem era esperada, agora é feita antes de pensar. E você fica aí, com esse amor que não planejou, que não desejou mas que insiste em bater à sua porta. Um amor que deixa você em pânico e em êxtase. Tudo diferente do que você um dia supôs, um amor que te perturba e te exige, que não aceita as regras que você estipulou. Um amor que a cada manhã faz você pensar que de hoje não passa, mas a noite chega e esse amor perdura. Vem bem assim, como diz Martha Medeiros: "aquele amor corretinho por você tão sonhado vai parar na porta de alguém que despreza amores corretos, repare em como a vida é astuciosa. Assim são as entregas de amor, todas como se viessem num caminhão da sorte, uma promoção de domingo, um prêmio buzinando lá fora, mesmo você nunca tendo apostado. Aquele amor que você encomendou não veio, parabéns! Agradeça e aproveite o que lhe foi entregue por sorteio."
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quarta-feira, 18 de abril de 2012
domingo, 12 de fevereiro de 2012
Fora de mim - Parte (sem fim)
"Doeu perder você. Passados quatro anos, ainda lembro. é uma dor tão recorrente na vida de tantas mulheres e tantos homens, é assunto tão repreisado em revistas, é um sofrimento tão clássico e tão narrado em livros, filmes e canções, que mesmo que eu não lembrasse, lembrariam por mim. é uma dor que se externa. Uma dor que se chora, que se berra, que se reclama. Uma dor que tentamos compreender em voz alta, uma dor que levamos para os consultórios dos analistas, uma dor que carregamos para mesas de bar, e que vem junto também para a solidão da nossa cama, para o escuro do quarto, onde permitimos que ela transborde sem domínio e sem verbo. A dor massacrante do abandono, da falta de telefonemas, da falta de beijos, da falta de confidências. No entanto, perde-se o homem, perde-se a mulher, mas o amor ainda está ali, mesmo sendo o deflagrador do vazio. Por estranho que pareça, há uma sensação de pertencimento, algo aidna está conosco. A saudade é uma presença.
Então vem a etapa seguinte.
Essa não é tão divulgada, tem-se por ela mais respeito e menos informação, pois é vivida pelo silêncio. O que acontece é que tem uma hora que ninguém mais aguenta ouvir a gente entonar nossa sina, lamentar nossa má sorte, procurar explicações para o fim. É quando a gente se dá conta de que já abusou da paciência dos amigos, dos familiares, e cala. Sofrimento cansa. Não só cansa aquele que sofre, mas cansa aqueles que o assistem.
Foi assim que a segunda dor começou, enquanto a primeira ia diminuindo. Já que eu não queria mais amolar niguém, comecei a fingir que estava me recuperando, e aí começou a recuperação de fato, tirei o foco de cima da minha autocomiseração, já não me sentia abandonada por Deus, aceitava com resignação a ruptura definitiva do nosso relacionamento, e dei início a um novo processo de despedida. Não mais o adeus a você, que já havia partido, mas o adeus à pessoa sofrida que eu vinha sendo. Aquele eu amargurado é que estava saindo da minha vida."
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
O amor que a vida traz
Você gostaria de ter um amor que fosse estável, divertido e fácil. O objeto desse amor nem precisaria ser muito bonito, nem rico. Uma pessoa bacana, que te adorasse e fosse parceira já estaria mais do que bom. Você quer um amor assim. É pedir muito? Ora, você está sendo até modesto.
O problema é que todos imaginam um amor a seu modo, um amor cheio de pré-requisitos. Ao analisar o currículo do candidato, alguns itens de fábrica não podem faltar. O seu amor tem que gostar um pouco de cinema, nem que seja para assistir em casa. E seria bom que gostasse dos seus amigos. E precisa ter um objetivo na vida. Bom humor, sim, bom humor não pode faltar. Não é querer demais, é? Ninguém está pedindo um piloto de Fórmula 1 ou uma capa da Playboy. Basta um amor desses fabricados em série, não pode ser tão impossível.
Aí a vida bate à sua porta e entrega um amor que não tem nada a ver com o que você queria. Será que se enganou de endereço? Não. Está tudo certinho, confira o protocolo. Esse é o amor que lhe cabe. É seu. Se não gostar, pode colocar no lixo, pode passar adiante, faça o que quiser. A entrega está feita, assine aqui, adeus.
E agora está você aí, com esse amor que não estava nos planos. Um amor que não é a sua cara, que não lembra em nada um amor idealizado. E, por isso mesmo, um amor que deixa você em pânico e em êxtase. Tudo diferente do que você um dia supôs, um amor que te perturba e te exige, que não aceita as regras que você estipulou. Um amor que a cada manhã faz você pensar que de hoje não passa, mas a noite chega e esse amor perdura, um amor movido por discussões que você não esperava enfrentar e por beijos os quais nem imaginava ter tanto fôlego. Um amor errado como aqueles que dizem que devemos aproveitar enquanto não encontramos o certo, e o certo era aquele outro que você desconfia que não lhe pertence. Aquele amor em formato de coração, amor com licor, amor de caixinha, não apareceu. Olhe pra você vivendo esse amor a granel, esse amor escarcéu, não era bem isso que você desejava, mas é o amor que lhe foi destinado, o amor que começou por telefone, o amor que começou pela internet, que esbarrou em você no elevador, o amor que era pra não vingar e virou compromisso, olha você tendo que explicar o que não se explica, você nunca havia se dado conta de que amor não se pede, não se especifica. não se experimenta em loja, como quem diz: ah, este serviu direitinho!
Aquele amor corretinho por você tão sonhado vai parar na porta de alguém que despreza amores corretos, repare em como a vida é astuciosa. Assim são as entregas de amor, todas como se viessem num caminhão da sorte, uma promoção de domingo, um prêmio buzinando lá fora, mesmo você nunca tendo apostado. Aquele amor que você encomendou não veio, parabéns! Agradeça e aproveite o que lhe foi entregue por sorteio.
Martha Medeiros
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Na terra do "se"
Se quem luta por um mundo melhor soubesse que toda revolução começa por revolucionar a si próprio. Se aqueles que vivem intoxicando sua família e seus amigos com reclamações fechassem um pouco a boca e abrissem suas cabeças, reconhecendo que são responsáveis por tudo que lhe acontece. Se as diferenças fossem aceitas naturalmente e só nos defendêssemos contra quem nos faz mal. Se todas as religiões fossem fiéis a seus preceitos, enatecendo apenas o amor e a paz, sem se envolver com as escolhas particulares de seus devotos. Se a gente percebesse que tudo o que é feito em nome do amor (e isso não inclui ciúme e posse) tem 100% de chance de gerar boas reações e resultados positivos. Se as pessoas fossem seguras o suficiente para tolerar opiniões contrárias às suas sem precisar agredir e despejar sua raiva. Se fôssemos mais divertidos para nos vestir e mobiliar nossa casa, e menos reféns de convencionalismos. Se não tivéssemos tanto medo da solidão e não fizéssemos tanta besteira para evitá-la. Se todos lessem bons livros. Se as pessoas soubessem que quase sempre vale mais a pena gastar dinheiro com coisas que não vão pra dentro de armários, como viagens, filmes e festas para celebrar a vida. Se valorizássemos o cachorro-quente tanto quanto o caviar. Se mudássemos o foco e concluíssemos qe infelicidade não existe, o que existe são apenas momentos infelizes. Se percebêssemos a diferença entre ter uma vida sensacional e uma vida sensacionalista. Se acreditássemos que uma pessoa é sempre mais valiosa do que uma instituição: é a instituição que deve servir a ela, e não o contrário. Se quem não tem bom humor reconhecesse sua falta e fizesse dessa busca a mais importante da sua vida. Se as pessoas não se manifestassem agressivamente contra tudo só para tentar provar que são inteligentes. Se em vez de lutar para não envelhecer, lutássemos para não emburrecer.
Se.
Martha Medeiros
terça-feira, 29 de novembro de 2011
sábado, 8 de outubro de 2011
Capítulo do Meio
É a pior morte, a do amor. Porque a morte de uma pessoa é o fim estabilizado, é o retonro para o nada, uma definição que ninguém questiona. A morte de um amor, ao contrário, é viva. O rompimento mantém todos respirando: eu, você, a dor, a saudade, a mágoa, o desprezo ― tudo segue.E ao mesmo tempo não existe mais o que existia antes. É uma morte experimentoas: um ensaio para você saber o que significa a morte ainda estando vivo, já que quando morrermos de fato, não saberemos.
Então é isso que começo agora, minha trajetória de morta-viva, com algumas horas morta, outras mais vivas, dependendo do que me chega, se um convite para sair ou uma lembrança corrosiva que abate e me destrói. A cada meia hora, um estado de espírito diferente. À noite, meu cansaço é igual ao de um maratonista, é como se eu tiovesse atravessado dezenas de quilômetros, entre subidas e descidas. Mas, ao contrário do que acontece nas ativbidades físicas, as descidas são as que mais consomem minha energia.
"Ele está morto. Ela aos ais
Mas neste lúgubre assunto
Quem fica viúvo é o defunto
Porque esse não casa mais."
Os versos de Mário Quintana tentavam me explicar que o amor termina apenas para aquele que morre: quem sobrevive dedica-se a um breve luto e depois volta pra casa ― e voltar pra vida quase sempre significa voltar a amar.
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
O Depois
Nunca sofri um acidente de avisão, mas já ouvi relatos de sobreviventes. Eles percebem a perda da altitude, a potência enfraquecida das turbinas, o desastre iminente, até que acontece a parada definitiva da aeronave e ouve-se um barulho fora do normal, algo verdadeiramente assustador. Então, após o estrondo, sobe do chão um silêncio absoluto. Por alguns segundos, ninguém fala, ninguém se move. Todos em choque. Não se sabe o que aconteceu, mas sabe-se que é grave. Alguma coisa que existia não existe mais. É a quietude amortizante de quem não respira, não pensa, não sente nada ainda.
Só então, depois desse vácuo de existência, desse breve período que niguém tem cereza se está vivo ou morto, começam a surgir os primeiros movimentos, os primeiros gemidos, uma sinfonia de lamentos que dará início ao que está por vir: o depois.
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